sexta-feira, 7 de março de 2014

Confira entrevista com Vânia Brayner, consultora da Unesco para o Sistema Nacional de Cultura ao Jornal Extra de Pernambuco

JORNAL EXTRA – A senhora tem percorrido parte do Nordeste para trabalhar questões referentes ao SNC. Como tem sido essa experiência?

VÂNIA BRAYNER – Eu sou consultora do SNC para Alagoas e Pernambuco. O Ministério tem uma parceria com a Unesco e a Regional Nordeste – que, fora Sergipe e Bahia, atua nos estados do Nordeste – tem três consultores, dos quais sou um, além de Cris Vale, que atua no Maranhão e no Piauí e o Renato Remígio, que atua no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O que eu tenho visto e, a partir das conversas com nossos colegas, é uma realidade cultural bastante explícita na Conferência Nacional de Cultura, quando as delegações do Nordeste se reuniram para discutir as propostas prioritárias da região. O interessante foi que quase todas as propostas apresentadas, de certa forma, coincidiram. Isso significa que há uma realidade que não é única, mas é parecida, entre os diversos estados.

Em Pernambuco e Alagoas, posso dizer que os municípios de Pernambuco têm caminhado bem, principalmente após a Conferência Nacional de Cultura. Ao inserir-se no SNC, os municípios e os estados passam a ter obrigações, bem como o Governo Federal tem obrigações nesse sistema, que é uma proposta de gestão compartilhada de políticas públicas. O que percebo é que nos municípios há grandes dificuldades de organização, pois o que o Sistema propõe, mesmo, é a institucionalização, uma melhor organização da cultura. Os municípios não têm planos, não sabem o que fazer. O SNC vem para trazer essas propostas.

JORNAL EXTRA – A predominância de uma postura de adoção de políticas de governo em detrimento de políticas de Estado pode ser considerado um fator histórico preponderante para a existência desses entraves?

VÂNIA BRAYNER – Na verdade, quando entrei nos municípios de Pernambuco e Alagoas vi que as políticas públicas são mais presentes nos municípios que têm sistemas. E são presentes como políticas de Estado, não mais como políticas de governo. Vemos, por exemplo, CRAS, vemos escolas com estrutura, vemos secretarias de Educação bastante atuantes. Isso porque estão organizados em torno de um sistema. É isso o que falta para a Cultura. Não temos uma política de Estado para a Cultura, temos iniciativas pontuais, em alguns casos, que estão conectadas com a diversidade cultural do município e, na maioria dos casos, não estão. Um dos mitos que mais se vende é que o município não tem recursos para a Cultura. Basta ver os orçamentos executados do município. O problema é o que se faz com esses recursos. Existe a cultura política de uma política cultural de eventos, que dá visibilidade aos governantes.
JORNAL EXTRA – Muitos criticam Caruaru, argumentando que a prática de promover eventos e não Cultura, efetivamente, é predominante na cidade. A senhora acha que Caruaru está atrasada com relação a esse aspecto?

VÂNIA BRAYNER – Não posso dizer que Caruaru está atrasada porque, na realidade, essa não é uma realidade de Caruaru, essa é uma realidade do Brasil. Os municípios e os estados construíram suas políticas públicas culturais em torno dos eventos. Temos de tirar da cabeça a ideia de que política cultural é feita para artista. A política cultural é feita para a sociedade. Quando começarmos a pensar assim, ganharemos força.

JORNAL EXTRA – Os artistas, muitas vezes, ficam reclamando e querendo benesses do governo. Eles deveriam se organizar melhor?

VÂNIA BRAYNER – É fundamental. Se quiser sobreviver como artista, ele deve entrar nessa ‘briga’ também, senão estará dando um ‘tiro no pé’. Não compreendemos ainda a força que a cultura tem para mobilizar a sociedade. Um exemplo foi essa questão dos maracatus, no Recife, onde definiram que os ensaios só poderiam ser feitos até as 2h da manhã. Quem reverteu isso foi a sociedade, junto aos artistas. O nível de mobilização que a cultura tem dentro da sociedade é muito forte. Há um estudioso, chamado Jon Hawkes, um australiano, que defendeu que a cultura é o quarto pilar da sustentabilidade, além dos aspectos ecológicos, econômicos e sociais. Sem esse pé, não se faz nenhuma política pública. A cultura ajuda tanto na implantação quanto na aplicação de políticas públicas.
JORNAL EXTRA – Na terça-feira 25, a senhora se reuniu com artistas em Caruaru. Que avaliação faz desse encontro?

VÂNIA BRAYNER – Eu, realmente, tive uma grata surpresa. Para mim, Caruaru é um fenômeno no sentido de mobilização. Antes da Conferência, Caruaru era meio silenciosa, entre as cidades do Agreste. No processo da Conferência, Caruaru foi um crescente bastante perceptível. Os artistas, na reunião, mostraram-se engajados, querendo mudar a situação. A Fundação de Cultura teve um papel importante nesse processo. O prefeito assinou a lei do Sistema Municipal de Cultura, se abrindo para que a sociedade participe e opine, mostra que ele também quer mudar algo. No futuro, o Conselho Municipal de Cultura poderá, por exemplo, opinar e definir a programação do São João. Isso é fundamental para garantir a inclusão da diversidade e aumento da qualidade dessa grande festa, que é importante do ponto de vista cultural. Mas isso está acontecendo no Brasil inteiro, as pessoas estão começando a perceber que têm um papel importante.


Jénerson Alves
Publicada na edição 525 do Jornal Extra de Pernambuco

Um comentário: